Sobre a Música de Câmara como fundamento do aprendizado violonístico.

No meu ponto de vista, é muito mais interessante ao estudante de violão iniciar seu aprendizado camerístico através de conjuntos homogêneos, ou seja, duos, trios, quartetos e ensembles de violão.



Um dos assuntos que mais me têm chamado a atenção ultimamente é o da importância da música de câmara na formação do violonista. Como instrumentista e professor, não posso deixar de notar que há, em geral, uma grande lacuna na educação musical dos violonistas no que diz respeito à prática musical em conjunto.

Tal fato não é de todo estranho, uma vez que o violão é um instrumento auto-suficiente, por assim dizer. Tal como no piano ou na harpa, no violão é possível executar texturas polifônicas mais complexas do que em instrumentos melódicos como o violino ou a flauta, por exemplo. E, naturalmente, o repertório do instrumento reflete esta característica, apresentando um corpo consideravelmente maior de música para violão solo do que de música de câmara com violão. Este aspecto, inerente ao instrumento, muitas vezes leva o estudante de violão a se concentrar no caminho individualizado em detrimento daquele que leva à interação com outros instrumentistas, e isto pode lhe trazer sérias limitações na futura carreira profissional.

O fazer musical em conjunto, no caso do violão, pode ser encarado sob diferentes ângulos. Como instrumento capaz de formar texturas polifônicas, ele pode assumir um caráter de instrumento acompanhante, fornecendo suporte harmônico a um ou mais instrumentos melódicos ou vozes. Saber acompanhar já demanda grande aprendizado, uma vez que obriga o violonista a priorizar a parte solista, quase sempre relegando a sua individualidade a um segundo plano. Porém, as possibilidades do violão em música de câmara não se restringem ao acompanhamento. O repertório camerístico concertante é abundante desde os primórdios do instrumento no final do século XVIII, e nele o violão não apenas exerce o natural ofício de acompanhante, mas atua também de maneira solística, liderando os demais instrumentos, que passam a assumir funções coadjuvantes.

Obviamente, o que coloco no parágrafo acima é uma idéia simplificada de todo o processo, já que existe uma infinidade de variações entre uma textura puramente de acompanhamento e uma textura solística, mas o ponto em que quero chegar é que é justamente nesta experiência de interação em diversos contextos que se aprende, como na dança de salão, a hora de conduzir e a hora de ser conduzido.

Dentro do repertório camerístico original e transcrito/arranjado, as combinações de instrumentos são as mais variadas. Mas pode-se, novamente de maneira simplificada, categorizar as combinações em conjuntos homogêneos e conjuntos heterogêneos de instrumentos. Estes últimos talvez sejam os mais comuns. A combinação tradicionalíssima (em nosso meio) do duo de flauta e violão é um exemplo de conjunto heterogêneo, já que é formada por instrumentos diferentes ou que não pertencem a uma mesma família. Já um trio de violões é um conjunto homogêneo, da mesma maneira que um quarteto de cordas, composto por instrumentos iguais ou de uma mesma família e, portanto, com características comuns de estrutura e sonoridade, bem como procedimentos técnicos de execução.

No meu ponto de vista, é muito mais interessante ao estudante de violão iniciar seu aprendizado camerístico através de conjuntos homogêneos, ou seja, duos, trios, quartetos e ensembles de violão. Isto se explica por vários motivos, entre eles:

1) Sonoridade – por natureza, a sonoridade do violão é mais delicada e de menor volume que a maioria dos outros instrumentos. Assim, um estudante de violão em estágio inicial que não tenha sua sonoridade plenamente desenvolvida pode encontrar dificuldades elementares para equilibrar a sua parte com a de outros instrumentos. Em grupos de violão, isto não acontece; ao menos não de maneira tão desequilibrada.

2) Similaridades técnicas – por compartilhar as mesmas características técnicas e de sonoridade, tocar com outros violonistas pode ser mais interessante do ponto de vista do aprendizado camerístico em estágios iniciais, pois a interação não se dá apenas no nível do fazer musical, mas também nas discussões e decisões sobre como solucionar os eventuais problemas técnicos e musicais decorrentes do repertório.

3) Tratamento melódico – diferentemente de grupos heterogêneos com instrumentos melódicos, nos quais o violão muitas vezes assume naturalmente um papel de suporte harmônico, em grupos de violões o violonista pode trabalhar com linhas melódicas isoladas, desenvolvendo assim uma percepção mais horizontal dos diversos elementos que formam o texto musical. Isto lhe será muito útil até mesmo no repertório para violão solo, onde o elemento horizontal também se faz presente, mas raramente de maneira individualizada.

4) Simplificação da textura – isto vale especialmente para arranjos, que permitem ao estudante trabalhar em repertório que dificilmente seria possível de ser tocado com um só violão, acomodando a textura polifônica em duas ou mais partes de acordo com critérios estruturais e/ou técnicos. Isto pode ser feito até mesmo com peças originais para violão solo, que podem ser “abertas” para um quarteto, por exemplo, permitindo a um estudante iniciante executar uma peça que só poderia tocar quando estivesse num nível intermediário ou avançado.

À medida que o estudante desenvolve suas habilidades camerísticas, familiarizando-se com questões fundamentais como o ataque sincronizado, as entradas, o gestual camerístico, a habilidade de seguir e liderar, o equilíbrio sonoro aplicado no contexto musical, etc., ele se encontrará mais bem preparado para abordar o repertório camerístico em grupos heterogêneos com instrumentos cujos estudantes tradicionalmente praticam música de câmara desde o início de sua formação instrumental.

É de meu entendimento que a prática da música de câmara deve ser levada tão a sério pelo estudante quanto a prática do repertório solo. Digo isto não apenas pelas questões abordadas acima, mas pelo desenvolvimento musical global que proporciona, levando-o a sentir-se mais preparado inclusive para desempenhar com segurança o papel de solista frente à uma orquestra, por exemplo. E, além disto, as possibilidades de se fazer uma carreira em música de câmara são significativamente mais amplas que uma carreira como solista.

Por fim, lembremos da concepção original de “música de câmara”: música para pequenos conjuntos, feita para ser tocada em ambientes de dimensões reduzidas, geralmente informalmente e para um seleto grupo de pessoas. Nada mais gostoso que tocar com amigos, que aprender e interagir em conjunto, dividindo responsabilidades. O trabalho solo é fundamental, mas tende a ser feito de maneira isolada e individualista, e o fazer musical não é algo que devemos guardar para nós mesmos, e sim compartilhar.

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