O papel do Educador Musical na formação de plateias.

A saída para a formação de futuras plateias para a música clássica está na educação de nossos jovens no presente.



Há muito tempo que leio ou ouço falar que a música clássica está morrendo. Não acredito nesta afirmação, muito embora entenda que exista uma renovação natural das plateias, e esta deva acompanhar as transformações que acontecem na sociedade e no uso da tecnologia. Assim, presume-se que o musicista contemporâneo busque atingir suas plateias de uma maneira diferente da qual fazia o musicista de 50 anos atrás, por exemplo.

Paradoxalmente, ainda que vivamos num mundo no qual a facilidade de acesso à informação ocorre de maneira inimaginável há apenas uma década, despertar o interesse por uma área específica – e não contemplada pela grande mídia – tornou-se ainda mais difícil. Talvez porque tenhamos tanto conhecimento ao alcance das mãos (melhor seria dizer, do teclado), não saibamos lidar com um volume tão grande de informações e precisemos, intuitivamente, restringir este volume a uma quantidade que seja “digerível”, baseados em nossa formação, interesses e necessidades.

Formação, interesses e necessidades. Aqui faço uma ponte com a educação, pois ela é parte essencial da formação do indivíduo, e, pensada em longo prazo, direciona seus interesses e necessidades pessoais, inclusive no que diz respeito ao acesso a bens de consumo, que incluem a música. O argumento que quero elaborar, portanto, é que a saída para a formação de futuras plateias para a música clássica está na educação de nossos jovens no presente.

Não se trata de conceito novo, absolutamente. Tanto é assim que grandes orquestras possuem programas voltados para o público em idade escolar, levando a música clássica à escola ou trazendo a criança e o adolescente às salas de concertos. Da mesma forma, inúmeros programas sociais patrocinados por governos ou organizações não-governamentais desenvolvem trabalhos de educação musical em comunidades, geralmente carentes, muitos deles inspirados pelo famoso El Sistema venezuelano. E, a partir de 2008, o ensino de música voltou a ser item obrigatório do currículo escolar básico no Brasil, o que, apesar das grandes dúvidas e polêmicas que ainda circundam o tema, não deixa de ser um imenso avanço no sentido de propiciar o acesso à informação e, assim, despertar o interesse pelo aprendizado musical nos jovens em idade escolar.

Muito embora, neste último caso, não estejamos falando necessariamente da música clássica, este gênero sem dúvida se beneficiará enormemente da reinserção da música nos currículos escolares. E aqui entra o papel do Educador Musical como agente social transformador de grande responsabilidade.

Trazendo a discussão para o ambiente universitário, é notória a distinção existente entre a vocação do aluno que estuda para ser professor de música e do aluno que estuda para ser intérprete musical. Apesar do eixo comum entre os currículos, os objetivos dos cursos de Licenciatura e Bacharelado em Música são muito diferentes, como não poderiam deixar de ser. No entanto, a ideia que quero levantar neste texto é que, apesar de diferentes, eles devem ser complementares, justamente porque, dentro de um panorama mais amplo, as especificidades de cada um dos cursos quando tomados isoladamente não dão conta da demanda que a sociedade impõe para aprender e consumir música.

Como minha formação sempre foi direcionada para as Práticas Interpretativas, não tenho competência para discorrer em profundidade sobre o papel do licenciado na formação de plateias. Porém, gostaria de compartilhar uma experiência pessoal que corrobora a ideia de aproximação entre o educador e o intérprete musical.

Em 2012, tive o prazer de fazer parte de um projeto selecionado para o Prêmio Funarte de Concertos Didáticos. Este prêmio consistiu na apresentação de 8 concertos didáticos em escolas públicas municipais de ensino fundamental e médio nas cidades de Florianópolis e Brusque, em duo com meu querido amigo e fantástico flautista, Michel de Paula. Os concertos tiveram, em média, 50 minutos cada, e o repertório foi composto por peças relativamente curtas ou movimentos de peças maiores, que pudessem servir de argumento para introduzir conceitos musicais, histórias interessantes e, às vezes, relacionar a nossa experiência como musicistas com as histórias de vida das crianças e adolescentes que estavam nos assistindo.

Posso dizer que esta semana de apresentações foi uma das mais ricas experiências musicais dos últimos anos. Nosso duo tocou para mais de quinhentos jovens, de variadas faixas etárias e condições sociais, em palcos reais e palcos improvisados, em contextos próximos do ideal e contextos muito distantes do que seria adequado para uma apresentação de música clássica.

Como era de se esperar – ao menos aqui em Florianópolis, que foi uma das primeiras cidades do país a se adequar à nova lei – pudemos observar em cada escola a presença diligente do professor de música. E, para meu orgulho e felicidade, muitos deles eram graduados do curso de Licenciatura em Música da UDESC!

Seria impossível e injusto comparar o trabalho desenvolvido por cada um dos educadores musicais que encontramos (ou reencontramos) em suas escolas, mesmo porque qualquer trabalho deste tipo se apóia num contexto mais amplo que inclui estruturas físicas e administrativas, e este contexto variava enormemente de uma escola para outra. Do espaço adequado ao comportamento dos diretores e outros professores que acompanhavam a apresentação, muitos eram os fatores que influenciavam positiva ou negativamente na postura e na receptividade das jovens plateias. Mas uma experiência em particular me encantou tanto, que desde então venho querendo escrever este post, refletindo sobre a importância do Educador Musical na formação de plateias.

Esta escola se destacava das demais por vários fatores. As instalações físicas eram surpreendentes, com salas amplas, bem equipadas e bem iluminadas. Um hall central amplo, que foge ao padrão de corredores e cantos estreitos, dava acesso e visibilidade a todas as salas da escola, do primeiro e do segundo andar. Um clima sadio de respeito e disciplina pairava sobre a escola. Mas o mais impressionante do ponto de vista estrutural foi conhecer a sala de música, na qual foi realizada a apresentação. Não me lembro de grandes detalhes, mas basta dizer que tocamos num palco (de verdade), com boa acústica, para uma plateia muito bem orientada por uma professora de música, também ex-aluna da UDESC.

A plateia mirim, formada por crianças entre 7 e 12 anos, esta sim foi o ponto alto da apresentação. Sem exagero, posso dizer que foi uma das plateias mais receptivas e intensas para as quais toquei nos últimos anos. Digo isto pelo comportamento durante e após cada execução, pelo interesse demonstrado pelos olhinhos e ouvidos atentos, e até mesmo pelas perguntas inteligentes que nos foram feitas ao fim do concerto didático. Foi muito emocionante tocar para estas crianças, e não posso pensar de outra maneira a não ser acreditar que este será um futuro grupo de adultos que terá formação, interesse e necessidade de ouvir música clássica no futuro; ou, pelo menos, terá tido a exposição ao gênero que permitirá a cada um desenvolver suas opiniões e gostos com um mínimo de embasamento crítico. Aplausos para a professora de música (extensivo a todos os outros profissionais que encontramos), que intermediou esta experiência tão rica para plateia e artistas!

Voltando à questão inicial que foi mencionada, sobre a suposta agonia da música clássica nos dias atuais. Pensando que todo musicista precisa de sua plateia para dar vazão à sua arte, as experiências que relatei brevemente neste post só podem alimentar a minha esperança de que a música clássica não está e nunca esteve morrendo e que uma ação inteligente e persistente por parte dos próprios musicistas e das estruturas governamentais – que, afinal, têm o poder de favorecer ou desfavorecer a educação de nossos jovens – pode reverter até mesmo o mais sombrio dos quadros.

E, novamente trazendo nosso foco para a formação de musicistas profissionais, no tópico “formação de platéias para a música clássica”, a integração e complementaridade entre a Educação Musical e as Práticas Interpretativas mostra-se mais apropriada que nunca.

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