Pesquisa

Ferdinand Rebay e a Reinvenção da Música de Câmara para Violão

Um olhar atento para a trajetória do violão na Áustria revela um declínio de atividade ao longo da segunda metade do século XIX. Tal fato ocasionou uma lacuna no repertório para violão do Período Romântico tardio, em contraste com a intensa produção vienense das primeiras décadas daquele século. A redescoberta do compositor vienense Ferdinand Rebay (1880-1953) no início da década de 2000 revelou uma grande quantidade de obras originais escritas para violão, particularmente em contextos camerísticos. Embora tenha vivido no período comumente associado ao Modernismo, traços estilísticos da escrita de Rebay têm sido comparados aos do mestre do Romantismo austro-germânico Johannes Brahms, sugerindo assim uma possível alternativa a esta lacuna de repertório, ainda que extemporânea.

Ferdinand Rebay foi um musicista de sólida formação, bastante atuante em Viena na primeira metade do século XX. Nascido em uma família musical, foi corista no Mosteiro de Heiligenkreuz e posteriormente frequentou a Kunstgewerbeschule (Escola de Artes e Ofícios) do Museu Imperial, paralelamente a estudos musicais privados com Josef von Wöss e Eusebius Mandyczewski. Em 1904, graduou-se com honras pelo tradicional Wiener Konservatorium, no qual estudou composição com Robert Fuchs e piano com Josef Hofmann. Iniciou sua carreira profissional como regente de coro (Wiener Chorverein e Wiener Schubertbund), pianista acompanhador e compositor de música vocal, com destaque para música coral e canções. Rebay voltou suas atenções para o violão somente a partir de 1924, durante o período em que lecionou piano na Akademie für Musik und darstellende Kunst em Viena (antigo Konservatorium) e travou contato com o professor de violão daquela instituição, Jakob Ortner. Outro nome importante do violão associado a Rebay é o de sua sobrinha e aluna de Ortner, Gerta Hammerschmid, a quem Rebay dedicou grande parte de suas obras para violão.

Esta pesquisa de doutorado trata de um grupo específico de obras camerísticas compostas por Rebay entre 1925 e 1942: suas seis sonatas para instrumento de sopro e violão. A pesquisa busca estabelecer uma posição para estas obras no repertório camerístico do violão e é conduzida em duas frentes: a primeira tem caráter histórico-musicológico e segunda fundamenta-se na reflexão sobre a prática musical. Inicialmente, proponho situar a vida e carreira de Rebay dentro do panorama violonístico da virada do século XX nos países de língua germânica, ressaltando a originalidade e importância do uso de um gênero tradicional como a sonata em vários movimentos num momento — início da década de 1920 — em que o violão estava se reafirmando como instrumento de concerto. Posteriormente, através de reflexão derivada da execução destas obras, abordo questões que refletem algumas das etapas pelas quais o intérprete acumula conhecimento e assume autoridade sobre o texto musical. Estas passam pela escolha da fonte (autógrafos, cópias manuscritas ou publicações), a análise estrutural enquanto instrumento subsidiário para a interpretação, a obtenção de insights interpretativos a partir das indicações e anotações presentes na partitura e partes, e a necessidade de intervenção no texto original por parte do intérprete, visando uma execução mais idiomática.

Esta pesquisa de doutorado está sendo desenvolvida no Royal College of Music em Londres (Reino Unido), tendo como orientadora principal a Dra. Natasha Loges. Adicionalmente, participam ou participaram como co-orientadores o Dr. Stefan Hackl (Universität Mozarteum Salzburg), o Dr. Terry Clark (Royal College of Music) e o Dr. Steve Goss (University of Surrey e Royal Academy of Music). Luiz Mantovani recebe apoio da CAPES-Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior, dentro de seu programa de doutorado pleno no exterior.

(Foto: Biblioteca Nacional Austríaca, Viena)

Gravações e Questionários

Participe de meu projeto! Após ouvir cada sonata, responda a um breve questionário através do link que segue (disponível apenas em inglês).

Sonata em Mi Maior para Flauta e Violão (Catherine Hare, flauta e Luiz Mantovani, violão)

Acesse o questionário sobre esta sonata aqui.

Sonata em Dó Maior para Oboé e Violão (Alex Fryer, oboé e Luiz Mantovani, violão)

Acesse o questionário sobre esta sonata aqui.

Sonata em Lá menor para Clarinete e Violão (Melissa Youngs, clarinete e Luiz Mantovani, violão)

Acesse o questionário sobre esta sonata aqui.